ESPAÇO INSTÁVEL

(desactivado)

 
 



Sem escândalo nem estrépito, venho hoje anunciar o encerramento do Espaço Instável, onde o Teatro Instável tem exercido a sua actividade desde 2004. Para a esmagadora maioria que não o conheceu, convém esclarecer que não se tratava de uma sala de teatro: era um espaço de ensaio, produção e formação (e que servia, também, de armazém), no qual algumas iniciativas culturais foram tendo a regularidade possível. Desde a sua criação até hoje, tenho procurado que o Teatro Instável se afirme como projecto independente de qualquer apoio público ou privado. Ao longo destes 7 anos de actividade, esse objectivo foi alcançado sobretudo graças à aceitação das limitações que daí advém: por isso se explica (exceptuando o “Hamlet” de 2007, co-produzido pelo Teatro da Trindade), que as restantes 10 produções tenham sido feitas com equipas reduzidas ao mínimo: em regra, dois intérpretes e um coordenador técnico, além de outros colaboradores para a cenografia, grafismo ou desenho de vídeo. Essas produções foram viabilizando o projecto do Teatro Instável, graças sobretudo à venda de espectáculos para todo o país, e sempre num limiar de sobrevivência: a linha de água sempre foi a de uns 12 espectáculos vendidos por ano. Acima disso (sempre uns escassos centímetros...), as contas desanuviavam um pouco. Abaixo disso, equilibravam-se, graças aos buracos entretanto abertos noutras actividades... Mas, neste ano da Crise de 2011, e até à data, apenas um espectáculo foi vendido. Como o Espaço Instável obrigava ao pagamento de uma renda mensal, além dos demais encargos habituais, não restou outra opção senão fechar. Assim se põe um ponto final no empreendedorismo e noutras vulgatas com que se imagina ser possível desatar o nó que sufoca a iniciativa e o arrojo nestes domínios das artes, e não só, no nosso pequeno país.


Sem escândalo nem estrépito se encerra este Espaço, sim, também pela razão palpável de que nada do que o Teatro Instável realizou até hoje mereceu a mínima atenção por parte dos zelotas da cultura. Não fora a atenção do público desse resto de Portugal, que para muitos é só paisagem, e muito graças à curiosidade mais abrangente dos programadores que nos foram acolhendo (quase apetece chamar-lhe pluralismo), e poder-se-ia insinuar que não existimos. Felizmente, existe mais vida para além desse défice relacional. Sob o totalitarismo que molda a noção de Cultura deste país, correm inúmeros rios, subterrãneos e imparáveis (embora prefiramos a ideia de que o nosso rio tem corrido bem à vista, solto e livre, como o rio da minha aldeia, maior que o Tejo, de que falava Caeiro).


Perguntarão: mas não há ninguém que pudesse apoiar este projecto, evitando o seu encerramento? Talvez. Noutros tempos procurámos, em vão, a atenção dos responsáveis da cidade de Lisboa. Procurámos a atenção de mecenas privados. Nunca parecemos reunir as condições necessárias para captar uma atenção devida, ora por uma razão, ora por outra: ora porque o Teatro Instável é uma empresa com fins lucrativos [risos], ora porque não há orçamento, ora porque, ao acolhermos aulas de danças de salão ou de Pilates para captar públicos e ajudar à sobrevivência do Espaço, estamos a desvirtuar o projecto...


Uma vez que o projecto do Teatro Instável, e a criação do Espaço Instável, é um projecto de iniciativa eminentemente pessoal, posso dizer sinceramente o que penso: ao fim de 20 anos encontrando, sucessivamente, fechadas todas as portas de interlocução com as instituições, optei pela via da independência de facto, custasse o que custasse. Passei a considerar confrangedor e humilhante andar a pedinchar junto das instituições condições para trabalhar e, muito menos, para criar projectos culturais, para mais num bairro que não possui nenhum, como é o caso. Não por arrogância, mas pela simples razão de que passei a considerar, à força de negativas sucessivas, tratar-se de pura perda de tempo.

Procurei provar, pois, que era possível desenvolver um projecto dimensionado para as possibilidades de um mercado emergente, com novos espaços culturais a eclodir por todo o país e disponíveis para gerar uma programação diversificada capaz de acolher propostas como as nossas — que, apesar ou independentemente da forma ou do conteúdo, são afinal propostas comerciais, pela simples razão de que se não venderem, não se sustentam.


Acho, certamente com presunção, que são os responsáveis que têm de estar atentos e abertos ao trabalho que vamos fazendo, mas numa sociedade culturalmente doente como a nossa — doente de escassez e doente de abundância — esta corre mesmo o risco de se revelar, sem dúvida, uma presunção descabida. Além do mais, não será realmente pedir um pouco demais que possa estar alguém inteirado e a par do nosso trabalho, na extenuante exigência das suas funções, se nenhum dos escribas ao serviço da informação que se escreve sobre cultura estiver de facto escrevendo nem informando sobre o que na cultura acontece? Os leitores das páginas criminais estão mais bem servidos que os das páginas culturais, porque se adivinha sem pestanejar que o facto um homem dizimar um galinheiro no Portugal profundo terá por certo mais cobertura do que uns miseráveis inventando uns espectáculos a partir de Lisboa só porque disso se foram lembrar.


Por isso, está bem assim: vivemos tempos de realismo. E o realismo aproxima-se da nossa realidade com a velocidade vertiginosa de um desastre. Atempadamente, apercebemo-nos de que é economicamente insustentável continuar a pagar a renda do Espaço Instável (lá se vai a iniciativa privada, que nem um espaço consegue alugar em tempo de crise), e que, apesar das muitas obras aí realizadas (e de termos aí dado um bocado cabo das costas), é tempo de fechar.. A colecção de máscaras portuguesas e fotografias, e todo o material expositivo, volta às nossas castigadas costas para garagens de amigos e casas de família, todo o material de espectáculos e escritório segue o mesmo destino, dão-se fatos e chapéus... Fechámos em Março com a exposição “Alice não regressou”, do João Concha, tivemos lá em Setembro outra, “Masques et Masquerades”, vinda de França, e antes disso as belíssimas fotografias do Carlos Cardoso sobre os “Ramais do Douro Desactivados” e as Máscaras Portuguesas; ficam por mostrar, no imediato, os desenhos inéditos do Miguel Cavaco ou as fotografias do José de Almeida, entre muitas outras exposições entretanto apalavradas (as minhas desculpas aos artistas); tivemos cursos de teatro (aparece pouca gente para estes cursos obscuros que eu gosto tanto de dar — e aos quais não basta juntar água...), e aulas com a Luisa Sabbo, o Luis Damas, a Elisa Lucinda ou a Maria João Serrão. Aqui ensaiámos espectáculos como “A Gargalhada de Yorick”, “O Pequeno Polegar”, “Hamlet, Heterónimos, Pessoa”, “Caminha, Pêro Vaz”, “Atrás das Máscaras”, “Teatro Instantâneo”, “Acerca de Música” ou “Hamlet”.


O Espaço Instável morreu. Viva o Teatro Instável!



André Gago

 

NO FIM DO ESPAÇO INSTÁVEL